Césio-137: Goiânia tentou apagar a memória do desastre, diz pesquisadora

  • 01/04/2026
(Foto: Reprodução)
Pesquisadora diz que Goiânia tentou apagar a memória do desastre Quase 40 anos após o acidente com Césio-137 em Goiânia, uma pesquisa aponta que a cidade passou por um processo de apagamento da memória da tragédia. O estudo foi desenvolvido pela professora Célia Helena Vasconcelos durante o seu mestrado na Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2019. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp Célia morava a cerca de 100 metros do ferro-velho onde a cápsula radioativa foi aberta, no Setor Aeroporto, e acompanhou desde o início a contaminação na região. “Foram pessoas que nós conhecemos. Eu vi todo o desenrolar desde o início, a limpeza, a demolição das casas e a retirada dos moradores”, lembra. A experiência direta com o acidente acabou influenciando o caminho acadêmico da pesquisadora. Formada em Letras, ela desenvolveu o mestrado na área de linguística, analisando como o episódio foi sendo silenciado ao longo do tempo. “É uma história pessoal que acabou se entrelaçando com a minha pesquisa. Foi isso que me levou a estudar o tema”, explica. Na época do acidente, Célia tinha 18 anos, estava grávida de sete meses e já era mãe de uma criança pequena. Ela relata que passou por monitoramento constante devido ao risco de contaminação. Segundo ela, apesar da grande preocupação das autoridades e moradores, ainda havia pouco conhecimento sobre a gravidade e a dimensão do que estava acontecendo naquele momento. LEIA TAMBÉM: Por que Césio-137 tem brilho azul? Vítimas do Césio-137 foram enterradas sob protesto de moradores e com cruzes sendo arremessadas; vídeo Césio-137: Mãe de Leide das Neves, símbolo do acidente, desabafa após quase 40 anos: 'A gente revive tudo' Célia visitando antigo local de contaminação Arquivo Pessoal/ Célia Vasconcelos | Reprodução/ TV Anhanguera Apagamento da memória Durante o desenvolvimento da pesquisa, Célia percebeu que havia poucos registros visíveis da tragédia na cidade. A constatação veio quando ela tentou mapear referências físicas do acidente.“Rodei Goiânia inteira e não encontrei praticamente nada. Nem placas, nem memoriais, nem referências nos locais onde tudo aconteceu”, relata. Segundo a pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, o apagamento da memória do acidente também pode ser percebido em mudanças simbólicas na cidade, como a alteração de nomes de ruas ligadas diretamente à tragédia. De acordo com ela, a antiga Rua 57-A, no Setor Central, passou a se chamar Rua Paulo Henrique de Andrade, enquanto a Rua 26-A, onde ficava o ferro-velho de Devair um dos principais pontos da contaminação, foi renomeada para Rua Francisca da Costa Cunha (Tita). Para a pesquisadora, essas mudanças contribuem para o silenciamento da história, já que o acidente está associado às denominações antigas, que deixam de ser reconhecidas com o tempo. “Quando você tira o nome de uma rua, você também tira a história que aconteceu ali. Foi um apagamento completo”, afirma. A pesquisadora também destaca que pontos importantes do acidente, como o antigo local do ferro-velho, o Estádio Olímpico, onde houve triagem e descontaminação e outras áreas afetadas, não possuem sinalização histórica. Outro dado que chamou atenção na pesquisa foi o desconhecimento do acidente entre as novas gerações. Segundo Célia, muitos jovens não sabem o que foi o Césio-137 ou têm apenas informações superficiais. “Se você conversa com pessoas de 30, 40 anos, a maioria não conhece a história. Nas escolas, pouco se fala sobre isso”, afirma. Milhares de pessoas foram avaliadas na época do acidente com césio-137 e 129 apresentaram radiação no corpo Goiânia Goiás Reprodução/Cara Memória que resiste Apesar do apagamento observado, Célia afirma que as lembranças permanecem vivas para quem viveu a tragédia. “Ainda hoje é muito doloroso. Quando fui desenvolvendo o trabalho, muitas memórias foram voltando. A gente revive tudo”, relata. Para ela, manter o tema em debate é fundamental para evitar que episódios como esse sejam esquecidos. 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás.

FONTE: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/04/01/cesio-137-goiania-tentou-apagar-a-memoria-do-desastre-diz-pesquisadora.ghtml


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